terça-feira, 6 de outubro de 2009

"Poesia para parar o tempo"

“Poesia para parar o tempo”

Carlos Lúcio Gontijo

Dia 5 de outubro de 2009, em Belo Horizonte, comparecemos ao lançamento do primeiro livro do poeta Antônio Carlos Dayrell, que recebeu ilustrações de Iara Abreu e prefácio da poetisa Bilá Bernardes. Dayrell é daquelas pessoas que carregam sensibilidade e poemas no olhar. Ou seja, lançar um livro é apenas uma oportunidade de registro do ser humano diferenciado que ele é, pois, com ou sem edição gráfica de seu pensamento poético, Dayrell não deixaria de ser, por meio de seus gestos diante da vida, poeta!
Nossa experiência de muitos anos na estrada literária, com 13 livros editados e, hoje, disponibilizados ao público na internet através de site com livre acesso, nos dá a exata noção de quanto é difícil editar livros no Brasil, onde as editoras pouco ou nada arriscam no lançamento de novos autores. E, assim, o Brasil, em plena democracia, tem tantos (ou mais) autores inéditos quanto no longo período ditatorial por que passou.
Não é à toa que, ao falarmos em novos autores no País, tais autores podem ter, por exemplo, 85 anos, como é o caso do jornalista Sebastião Henriques, que um dia nos procurou para que prefaciássemos um livro de poesia intitulado “A natureza em cantos”. Fizemos-lhe o prefácio com todo o carinho, mas nosso amigo “Tião” demorou anos a fio para conseguir editar sua obra literária. E ainda bem, pois conheço muitos (alguns prefaciados por nós) que já desistiram de tão difícil missão.
Então, é por essas e outras, que regozijamos e ficamos felizes quando alguém consegue quebrar barreiras e editar livro independente no Brasil, onde a cruel realidade é que, com a rara exceção dos grandes nomes, o setor editorial brasileiro sobrevive à custa dos autores independentes, uma vez que as editores têm por hábito vender seu selo ou logomarca, numa aparente edição bancada, quando na realidade o autor está pagando parte da edição.
Dentro de quadro tão adverso se multiplicam as ofertas de participação em coletâneas, onde os autores “escolhidos” – com raríssimas e pontuais exceções – pagam para ter seus poemas ou contos publicados. A prática funciona mais como meio de arrecadação de gráficas e editoras do que para a promoção de poetas e escritores, pois não há como alicerçar ou consolidar trabalho literário por intermédio da pulverização de registro autoral em coletâneas. No entanto, é a única saída possível para matar a sede – que todo autor guarda no peito – de ver seus textos e poemas publicados.
Dessa forma, deixamo-nos tomar por licoroso contentamento, ao assistirmos a poetas como Antônio Carlos Dayrell vencerem a inoperância dos incentivos culturais governamentais, que só correm para o mar, ou melhor dizendo, para os autores e agentes culturais focados pelos holofotes ignaros dos grandes veículos de comunicação, enquanto atiram migalhas aos movimentos ligados à chamada cultura de raiz Brasil afora – que existem e, apesar de não serem nem nacionais nem estaduais, cumprem importantíssimo papel social nas localidades em que atuam.
Parabéns, poeta Antônio Carlos Dayrell, pela edição do artesanal “Poesia para parar o tempo”, onde você nos revela um mundo sob o jugo e a indiferença dos podres poderes putrefatos, em principesca farra paga com recursos e verbas públicas, como bem nos diz o seu aforismo poético “Carteado”: Se a cidade está sob controle, os governantes jogam bridge.
Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
www.carlosluciogontijo.jor.br

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